terça-feira, 14 de junho de 2011

Déja vu

Ela não queria saber. Não queria entender. Não queria viver. Viver na constante mutação que a palavra amor injecta na nossa vida.
Para quê abrir o coração? Deixá-lo exposto. Vulnerável a qualquer ataque mais ou menos certeiro de um ou de outro (des)conhecido.
Optando pelo caminho mais camuflado, escondia sentimentos nas aventuras que decidira ter.
Nunca havia sido pessoa de grandes diversidades, e talvez esse fosse o maior problema que a assombrava. Podia agarrar-se. Agarrar-se de tal maneira a todo aquele turbilhão de sentimentos, que só no clímax da cena tomava consciência do erro que estava a cometer...tarde demais! O virar costas já custava. O silêncio magoava. E o desprezo era arma mortífera de um crime que ela mesma protagonizava vezes e vezes sem conta.
Dona de si mesma, sempre segura. Mas aquilo era como um ciclo vicioso de onde, uma vez lá dentro, não conseguia sair.
Por vezes, um novo desafio era a cura para toda aquela excitação acalmar. E lá ia ela...lançava-se ao desconhecido, e voltava a emaranhar-se em grande confusão.
Não era pessoa de ir longe demais. Não lhe convinha. Era contra os valores que defendia. Mas no que tocava ao coração...bolas! Era da mais frágil jogadora.
Com o tempo foi aprendendo que na vida nem sempre se ganha. Ou no seu caso, nem sempre se perde.
E do caminho percorrido fez músculo para suportar o que o futuro lhe podia reservar.
Mais fria. Mais cautelosa. Em vez de um só trinco, bloqueou por completo todas as formas de ser atingida naquele seu pequeno pedaço de si mesma que outrora conseguia bater tão rápido e fortemente por alguém. Não. Porque volta e meia, julgava que ia ser diferente. Que "desta vez é que é"! No entanto, já não era apenas um déja vu.

9 comentários:

João Afonso Adamastor disse...

O problema de todos os corações é que bebem expectativas em demasia e culpam-se por qualquer liberdade que o espírito conquiste... criam-se amarras de ilusão que apertam cada vez mais ao ritmo que crescemos e continuamos a fazer dele um prisioneiro. Devíamos todos ter um coração menos sonhador e um espírito ávido de desejos, um coração que sabe perder e um espírito com ambição, um coração que sabe esquecer e um espírito que não fuja das memórias. Devíamos sentir menos com o coração, escutá-lo apenas de vez em quando e deixar a boca sentir o que o coração não diz, deixar o amor ser mesmo a mais nobre fraqueza do espírito e não ter medo de perder o jogo ou de se perder na viagem, mas sim de se esquecer o caminho de regresso ao próprio corpo.

E isto tudo (mais uma vez) para dizer que gostei do texto, não tanto da força que o trás aqui :)

Aline Carlos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aline Carlos disse...

Oi,gostei muito do seu blog ,visitarei sempre...já to seguindo(me segue também?)

Rapunzel disse...

João:

O coração que ama não aceita perder. E das duas uma: o coração que já perdeu dificilmente aceita sequer(!)a hipótese de voltar a perder, ou então procura desesperadamente uma saída mais oportuna.

Mas concordo plenamente com o que dizes. Ou melhor, concordava, já que em determinados dias o meu coração renega tudo o que já disse (ou sentiu).

Mas é impossível, isso que dizes. Sentir menos com o coração, escutá-lo apenas de vez em quando...

O coração que ama não é racional. E quando amas não, não podes ter as duas coisas, podes apenas fingir que és racional e lutar contra o coração. Mas deixa-me que te revele já o desfecho dessa luta: o coração vai sempre ganhar. Sai maltratado, tanto pelos acontecimentos que o deixaram assim, como por nós, que não tivémos culpa que ele se deixasse enganar...

Que bicho estranho este coração.

Jênifer Lauffer disse...

Oi moça, adorei esse texto!! Sempre estamos em fugas e sempre com esperança de ter um final feliz para o coração. To te seguindo e lerei os restante!! Abraço

A felicidade passou por aqui...Anápolis - GO disse...

Amo vaguear por blogs e chegar a textos assim, a cara da gente.....

Pri Lencina disse...

Gostei muito do texto. Pude até me identificar em algumas palavras, me encontrar em uma ou outra frase...belo mesmo.

eros.ramirez disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
eros.ramirez disse...

Muito bom o texto. Sentimento vivo. Mesmo com a anestesia que pode provocar. Um abraço.